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sábado, 27 de setembro de 2014

Escrever para quê?

Foi pelas mãos do professor Plínio Sussekind Rocha, de quem fui o último assistente, que eu entrei na vida acadêmica. Apesar da igualdade de sobrenomes, não éramos parentes. No escolher-me para trabalhar com ele não houve, portanto, nenhum traço de nepotismo; foi, apenas, o resultado de uma apreciação de mérito que a juízo dele existia. Seja pelo seu nível exacerbado de exigência, seja pela luminosa capacidade de descortino e de crítica que ele sobejamente exibia, tudo isso aliado a um conhecimento sólido e enciclopédico, essa escolha constituiu, para mim e para os que conheceram Plínio e sua época, o mais grandioso título que recolhi na vida intelectual.
Devo confessar que Plínio não foi uma pessoa qualquer. De algum modo ele resgatou, em minha vida, a mística do sábio professor, que se esfumaçara quando, com oito anos de idade, descobri, estarrecido, que professores podem ser ignorantes, mais do que seus estudantes, mesmo que dos cursos elementares. Conto a história. No meu tempo de criança, o início da educação escolar tinha o nome de curso primário. Nele, havia três matérias: Linguagem (língua portuguesa), Matemática (aritmética) e Conhecimentos Gerais (mistura de história, geografia e noções de ciências). Ocorreu que, em uma prova de Conhecimentos Gerais, a professora formulou a seguinte pergunta de História do Brasil: “O que fizeram os jesuítas aos Tamoios?”. Consoante a aula dada, a boa e querida senhora esperava que seus alunos respondessem: “Os jesuítas pacificaram os Tamoios”. Acontece que eu preferi uma resposta sintética, em uma única palavra: “pacificaram-nos”. A gentil criatura não me deu os pontos da questão, que marcou como de resposta errada, e me explicou candidamente meu pretenso equívoco no uso da forma verbal. Disse ela: “Está errado, porque os jesuítas pacificaram a eles e não a nós.
Ao contrário do que se tornaria usual em tempos posteriores, não tive a petulância de responder que, em que pese a ambiguidade da expressão escrita, errada estava ela, porque “pacificaram-nos” era, no caso, o correspondente a “pacificaram-(n)os”, isto é, pacificaram a eles, com um n eufônico acrescentado em virtude da terminação da forma verbal em m. Que era assim, eu sabia, não por estudos linguísticos precoces, mas pela simples leitura da “Gramática da Emília”, de Monteiro Lobato, autor ao qual devo muito de meus primeiros conhecimentos. Chocado, apenas olhei muito sério para ela enquanto, naquele mesmo instante, desenhava-se com clareza em minha mente a convicção de que me precisaria restringir sempre ao nível de ignorância dos meus professores. Desde esse incidente, minha perspectiva estudantil foi a de que provavelmente meus professores seriam ignorantes, e eu deveria tratar de aprender a despeito deles, antes que com eles.
É claro que essa expectativa pessimista e de excessiva severidade foi frequentemente desmentida por professores excelentes, Alguns deles foram nomes famosos, como Aurélio Buarque de Holanda – o Aurélio do dicionário. Outros nem tanto, como Zacharias Batalha, de Matemática, com quem aprendi que o bom professor é aquele que faz parecer simples o que é complicado, e não o oposto. Ele satirizava os mestres que proferiam aulas magistrais que ninguém entendia, fazendo, no dizer dele, os alunos pensarem: “Como ele é sábio... e como eu sou burro!” Oposto a essa prática, o velho Batalha colocava-se diante de nós para que adquiríssemos sabedoria, não para que fôssemos ofuscados pela sabedoria dele. Conquistou, desse modo, minha admiração e meu respeito e ensinou-me a matéria que lecionava e muito mais.
As experiências positivas, porém, nunca apagaram de todo o “pé atrás” com que me aproximava de todos os docentes, o que foi de grande valia, já que me protegeu da estupefação desencantada ao testemunhar, algumas vezes, grandes homens dizendo tolices, por descuido ou para não se darem ao incômodo de uma explicação mais precisa e também mais demorada, o que representaria mais trabalho.
Com Plínio, foi tudo diferente. Nunca o pilhei em nenhuma impropriedade, nenhum equívoco, nenhum deslize intelectual. Foi a única pessoa com quem, quando eu argumentava em contrário, já esperava, em meu íntimo, que ao final do debate seria revelado que era ele quem tinha razão. Completamente cético a respeito de ideologias, tinha amigos à esquerda, como Mário Schoenberg e Álvaro Vieira Pinto, e à direita, como Dom Irineu Pena, monge beneditino que ele ainda chamava pelo nome civil de Weimar, amigos de juventude que haviam sido. Aprendi com sua disciplina intelectual irrepreensível que é preciso examinar-se o pensamento alheio dentro dos padrões ideológicos que o hajam inspirado, independentemente da opinião que se tenha acerca desses padrões. Lógica e crença precisam ser radicalmente separadas, e é preciso primeiro conhecer para, depois, se for o caso, formular juízo de valor.
Além disso, Plínio era de uma generosidade extraordinária. Em relação a tudo que alguma vez lhe perguntei, da matéria dele ou de outras, estendia-se em explicações minuciosas, não raramente apresentando aspectos originais ou pouco explorados do assunto. Enquanto estudante, eu dizia que ele foi para mim a Universidade. Em tempos bem posteriores, dediquei a ele, in memoriam, minha tese de doutoramento em filosofia, definindo-o no seguinte mote: “o homem com quem eu aprendi”. Minha admiração por Plínio, pelo que ele foi como intelectual e como ser humano, era e é desmesurada, e qualquer homenagem que eu lhe preste me parecerá sempre inexpressiva e insuficiente.
Tive o privilégio de desenvolver com Plínio uma relação quase familiar. Fui convidado e admitido a participar de sua vida doméstica e privar da intimidade dele e de Myrce, sua mulher. Frequentando-lhe a casa, tive acesso a livros e revistas de sua biblioteca, razoável em termos quantitativos e magnífica em termos qualitativos. Ali, encontrei obras de autores que impulsionavam a vanguarda do conhecimento, comentadas e, muitas vezes, contestadas por Plínio, em anotações de margem que continuavam em intermináveis folhas de bloco enfiadas por entre as páginas dos livros. Eu perguntava: mas, professor, por que o senhor não publica isso? Ele respondia que seu texto ainda não estava completo, que havia questões adicionais que ele também não resolvera, e assim por diante. É... Plínio escrevia para si. Em termos da indústria acadêmica inventariada pela plataforma Lattes (aliás colega e amigo de Plínio) ele não teria “produção intelectual” apreciável.
Isto refletiu-se em minha própria atitude: se Plínio não se sentia em condições de escrever, quem seria eu para fazê-lo. Além disso, sempre me pareceu que tudo que sei é óbvio, e não faz sentido escrever sobre o óbvio. O próprio Plínio ria-se dessa ideia e me dizia que o óbvio para mim não o é para todos. Além disso, com plena consciência da evolução que se desenhava para o ambiente universitário, advertia-me expressamente: “Você precisa escrever. Não faça como eu.”
Não lhe segui o conselho. Primeiro por modéstia, depois por preguiça, aderi ao que, em termos da contabilidade das publicações, se descreve como “baixa produção”. O fato de ter artigos de estratégia traduzidos para o chinês e para o árabe nada importa diante da computação numérica.
Esta é a explicação, talvez desnecessariamente longa, da minha resistência a escrever. Ela me veio à mente quando pensava na pergunta que me fez um de meus netos: “por que o senhor não escreveu nada sobre a campanha eleitoral?” Ele se referia, evidentemente, à campanha em curso em 2014, observando, por contraste, que publicara diversos posts referentes à campanha de 2010.
Remexido o passado, outras lembranças voltaram. Desta vez, provindas da literatura que, logo após à de Monteiro Lobato, encantou minha juventude: os contos de feição árabe da autoria de Malba Tahan, escritor fictício criado, como heterônimo, pelo professor Júlio César de Mello e Souza.
Em um desses contos, chamado O Livro do Destino, ele fala de um homem amargurado e meio louco que afligia as pessoas dizendo: “eu tive em mãos o Livro do Destino”. Convidado a explicar-se, narra que conseguira com um dervixe misterioso os meios de encontrar a caverna onde se guarda um livro no qual Allah escreveu, antecipadamente, o destino de todos os homens. Ele levava pena e tinta para acrescentar, na sua página, a certeza de tornar-se próspero e feliz, desfrutando de vida longa e saudável. Ao folhear o livro, porém, deparara-se com a página de um desafeto e não resistira à tentação de redigir, nela, augúrios perversos e cruéis contra esse homem. Isto despertou-lhe o desejo de procurar as páginas de outros inimigos e despejar, abundantemente, infelicidade e tristeza em suas vidas. Tão entretido ficou nessa prática abjeta que não reparou na passagem do tempo. Logo lhe apareceu um demônio horrível e truculento que o lançou fora da caverna, sem que pudesse mudar sequer uma vírgula na descrição de sua própria existência miserável.
Por quê esta lembrança? É fácil perceber.
Como o personagem de Malba Tahan, os candidatos concorrentes nesta campanha esmeram-se em ofender, difamar, ou, como está em moda no jargão político, “desconstruir” a imagem de seus adversários, quando não a deblaterar contra Deus e todo mundo, na pretensão de mostrar a perversidade de terceiros e a maldade de toda gente. Ao contrário do que acontece em disputas desse tipo em países civilizados, a forma pela qual isso é feito é, preferentemente, a mais chula, vulgar e grosseira que seja possível, talvez porque os marqueteiros imaginem que se os comentários forem minimamente polidos não serão entendidos pelo “povão” mal-educado.
Mas não é o “povão” mal-educado que encontro no ágora virtual chamado facebook. Ali, não é incomum ver gente de boa formação e que costumava exibir comportamento gentil e ponderado nas relações sociais completamente ensandecida, formulando ou repercutindo agressões e falando dos candidatos adversários de seus preferidos como torcedores de times de futebol se referem aos times com que têm rivalidade tradicional. Só que, dentro desta metáfora, em vez de se orgulharem dos dribles e gols de seus jogadores, deliram com a violência das faltas cometidas, como se aleijar o adversário fosse ganhar o jogo.
E talvez seja. É bem possível que o resultado eleitoral se revele mais influenciado por esse lastimável vale-tudo do que por um julgamento bem informado, sereno e inteligente dos problemas nacionais e de suas possíveis soluções. Exceção feita ao fanatismo ideológico, que, por ser fundamentalista, é imune à discussão racional, o resto da população deveria desejar e até exigir o debate inteligentel. Entretanto, parece, à primeira vista, que os indivíduos não estão interessados nessas questões, seja porque a complexidade dos problemas os colocaria acima e além do entendimento do povo, seja porque as pessoas não percebem no quê e por quê essas questões têm a ver com seu cotidiano, a única coisa, afinal, que efetivamente importa.
Se realmente for assim, apresso-me a dizer que a culpa não é do povo nem da democracia: é do entendimento distorcido que as pessoas dotadas de algum tipo de liderança costumam ter do modo de vida democrático. A democracia dá trabalho. Se os problemas nacionais têm complexidade maior do que o que a compreensão popular pode alcançar como evidência imediata, é indispensável que se empreenda uma pedagogia política consistente na explicação desses problemas e suas possíveis soluções. Se as pessoas não entendem que relações há entre os grandes e graves problemas do País e o dia-a-dia de suas vidas, é preciso que isso lhes seja minuciosa e didaticamente ensinado. Tudo isso é muito diferente e muitíssimo mais difícil e trabalhoso do que “desconstruir a imagem do adversário”. Para esta tarefa destrutiva, basta aos candidatos repetir, apenas, o que os marqueteiros lhes sugiram, sem precisar sequer entender o que estejam dizendo.
Tudo isso, porém, me parece óbvio, muito óbvio, até para os homens e mulheres que manipulam o poder. Não acredito que os próceres da vida política façam o que fazem por ignorância; fazem-no por má-fé. O preferível, para eles, é, mesmo, um mandato conferido por um povo desavisado, movido pela emoção, porque este lhes permite agir como melhor lhes pareça em seu próprio benefício e no de seu grupo político, ainda que se escondam por detrás da retórica de que é tudo para o bem do povo. A alternativa é o enfrentamento da tarefa de explicar os problemas e suas possíveis soluções a um eleitorado crítico e consciente de seus próprios interesses. Esta via, entretanto, é árdua, insegura e pressupõe que todos os que pleiteiam votos conheçam razoavelmente os problemas e suas possíveis soluções. Como se sabe, isto é uma hipótese exageradamente otimista.

Em palestra proferida em 1967, em um congresso de lógica, metodologia e filosofia da ciência, Karl R. Popper declarou: “Embora eu seja um filósofo muito feliz, não tenho, após uma vida inteira de conferências, ilusões a respeito do que posso transmitir em uma palestra. Por essa razão, não tentarei convencê-los nesta.  Em vez disso, tentarei colocá-los diante de um desafio e, se possível, provocá-los.” Não tenho sequer uma fração pequena da notoriedade e da importância intelectual de Popper, talvez o mais relevante filósofo da ciência do século XX. Por isso e com mais forte razão, não nutro ilusões acerca de minha capacidade de convencer. Sou, também, descrente da possibilidade de que grande número dos brasileiros venha a tratar de assuntos políticos como questões efetivamente associadas à racionalidade. Então, desafiar ou provocar seria entendido, neste caso, como um convite a possíveis interlocutores para uma troca emotiva de impropérios, e isto eu não quero, porque tal coisa, antes de me ofender, me cansa. Então, se a respeito de um assunto só posso explicar o óbvio e, ainda assim, não acredito que minhas palavras produzam efeitos construtivos, impõe-se a pergunta retórica: escrever para quê?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A era dos irresponsáveis

Em seu livro A Era dos Direitos, Norberto Bobbio mostra que a concepção do Estado como garantidor dos direitos dos cidadão é essencialmente moderna. Trata-se de uma construção histórica que nada tem a ver com a natureza das coisas, se por natureza entendemos o mesmo que esse termo significa no contexto das ciências naturais.
Tomo de empréstimo o título de Bobbio, parafraseando-o. Ao fazê-lo, ocorre-me que possivelmente o que me acabrunha como calamidade seja, apenas, uma decorrência perversa da mentalidade generosa que imagina um mundo de direitos exacerbados sem a contrapartida dos deveres e obrigações, em uma era na qual as fantasias mais descabeladas podem ser propostas como utopias até que o choque da realidade insensível e implacável acorde suas vítimas inebriadas pelo canto das sereias.
“Vítimas” é uma palavra que não planejara usar, mas insinuou-se quase que imperceptivelmente no meu texto. Vivemos a apoteose da vitimização. Todos somos ou cremos ser vítimas. O mito fundador da nossa civilização inclui a história de um casal primevo – Eva e Adão (eu pronuncio pausadamente, para evitar cacofonia) – cuja culpa primordial de comerem o fruto da árvore da ciência do bem e do mal acarretou sua expulsão do Paraíso e marcou a humanidade com um “pecado original” que a todos nos dana desde o nascimento. Os absurdos lógicos e éticos que este mito abriga, foram piedosamente camuflados pelos teólogos de todos os tempos, de modo que, enquanto vigeu em plenitude, as pessoas podiam ter uma vaga nostalgia do Éden, mas sabiam que a realidade era dura, porque papai Adão havia sido condenado ao trabalho para subsistir.
As utopias iluministas e pós-iluministas, orgulhosas de seu caráter profano, mas estruturalmente análogas à religião banida para o limbo supersticioso pela idade da razão, estavam impossibilitadas de atribuir a dureza da realidade ao ato voluntarista de um deus atrabiliário. Então, buscaram os culpados em um nível mais próximo. Descobre-se, deste modo, a versão ateia da “expulsão do Paraíso”, a saber: a injustiça histórica.
A ideia parece bem engendrada. O mundo é desigual porque nós o fizemos assim ao longo da história. Então, é na história que temos de procurar os vilões que, por meio de um processo odioso de dominação, colocaram seus semelhantes em condições subalternas e infelizes. O passo seguinte é concluir que a simples destruição dos poderosos opressores transformará a humanidade em um oásis de paz e de prosperidade: se o “sistema” for destruído, receberemos sem esforço tudo aquilo que torna a vida desejável, já que é o “sistema” que implanta a desigualdade e a miséria. A mensagem é tão palatável quanto a promessa cristã tradicional de salvação da alma na vida eterna ou a promessa neopentecostal de prosperidade neste mundo, desde que pagos dízimos escorchantes.
O problema com as utopias é que a crença nelas desafia qualquer teste empírico de realidade. Quando confrontado com a improbabilidade do resultado prometido, o crente indeciso é lembrado de que a utopia ainda não se realizou, mas vai realizar-se no futuro, mesmo que esse futuro jamais chegue. No caso da vida eterna, só após a morte poderemos constatar sua existência; no caso das utopias sociais... bem, o que é a vida de umas poucas gerações humanas em termos históricos?
Não vou examinar, aqui, a vida eterna e, muito menos, o estelionato espiritual. Quero ater-me ao problema da “injustiça histórica”.  Faço isso porque toda doutrina fideísta, seja religião, seja utopia social, envolve um mito, um rito e uma piedade, ou disciplina material e espiritual, e tanto os ritos quanto a disciplina são “logicamente” justificados pelo mito. Este é a narrativa das origens, gratuitas e fantásticas, que os pensadores de Mileto quiseram substituir por elementos físicos, inaugurando, desse modo, o pensamento filosófico.
O mito que fundamenta a crença na vida eterna e a possibilidade do estelionato espiritual envolve um Deus onipotente, criador ex nihilo (a partir do nada), eterno, isto é, transcendente ao quadro espaço-temporal em que se desenvolve a experiência humana. Portanto, é impraticável aplicar a esse conceito de divindade os critérios de verificação empírica que a modernidade tornou definitivos para estabelecer-se a verdade de uma proposição acerca do mundo real. Quanto à injustiça social, o mito subjacente a essa concepção é a lenda ruseauniana do “bom selvagem”, da humanidade naturalmente perfeita, deformada pelas mazelas da sociedade. Este, que não apela ao sobrenatural, pode, sim, ser analisado em termos racionais e empíricos.
Coloca-se, então, a questão: há algum fundamento para crer-se na possibilidade real da utopia paradisíaca, a organização social em que todos terão seus projetos de felicidade realizados? Um estado de coisas assim nunca se realizou na prática. Não há exemplos dele nos domínios da natureza que, ao contrário, são permanentemente conflituosos e competitivos. Como já intuíra Heráclito de Éfeso, cognominado o Obscuro, o conflito é a origem da mudança e, portanto, do progresso, se quisermos usar essa concepção modernista.
No evolver da civilização, percebe-se que a dinâmica competitiva da vida favorece a barbárie, que é, por sua vez, incompatível com o processo civilizatório. Então, busca-se uma homeostase, um equilíbrio dinâmico em que as mudanças tornam-se controladas, mas ao cabo de um determinado grau de acumulação, alteram dialeticamente a forma de vida praticada e originam novos “princípios” que aparecem como resgatados do passado para fundamentarem algo que, na verdade, é basicamente original. A mudança amortecida e o conflito controlado compatibilizam – espera-se – a violência da realidade com a possibilidade do progresso.
O processo pelo qual isso acontece é o da imposição de deveres e obrigações, que originam correlatos direitos – não o oposto. Entretanto, uma vez presentes, direitos e deveres entram nesse processo dinâmico que se poderia caricaturar do seguinte modo: cumprir-se obrigações impostas é doloroso, desagradável e pouco eficiente para quem impõe. Então, é preciso substituir o comando voluntarista que assegura o cumprimento da obrigação pelo comando normativo, no âmbito do qual cada participante do processo sabe o que lhe compete e se coloca voluntariamente na posição que lhe cabe, Isso substitui o uso da força pelo da racionalidade. Como a racionalidade não se limita pelos vínculos da realidade, podem-se conceber projetos de futuro fantasiosos. Estes, uma vez difundidos, podem revelar-se factíveis, ou podem constituir utopias que, embora não sejam factíveis, têm grande importância pelo seu poder de impulsionar a criatividade em direção a projetos subsidiários que podem ser, eles sim, factíveis.  Observe-se que o projeto que não é factível em curto prazo, pode vir a sê-lo no prazo longo, em geral com características radicalmente diversas das concebidas por seus criadores. É assim que se chega a uma situação em que a obrigações aparecem como fardos a serem abandonados, enquanto os direitos parecem ser algo originário cuja negação só pode decorrer de uma perversidade consciente.
Estas reflexões me foram sugeridas pelo impacto de uma conversa que tive recentemente com um jovem de 21 anos. Trata-se de um estudante universitário em final de curso, reputado de bom nível e a respeito do qual se espera um futuro profissional brilhante. Com impressionante convicção e tranquilidade ele sustentou a tese de que “o erro não pode ser punido, desde que não seja intencional”. Para desenvolvê-la afirmou que “errar é normal” e que “quem erra merece uma segunda chance”, concluindo que a sanção intrínseca ao erro é o fato de quem erra não ter feito a coisa certa, sendo inadmissível que se lhe aplique uma punição (que seria adicional) para torná-lo agudamente consciente da necessidade de evitar o erro, pela experiência de algum tipo de sofrimento pessoal. O que me abateu, porém, definitivamente, foi a afirmação conclusiva: “pelo menos foi isso que sempre me ensinaram”.  Diante de minha incredulidade, informou-me, singelamente, que qualquer pessoa de sua geração me diria coisas parecidas.
O jovem foi além e exemplificou sua tese com o prejuízo causado por um auditor fiscal que revelava curial desconhecimento da lei ao lançar, a um contribuinte, impostos de maneira equivocada, e concluiu: “tudo bem, ele apenas errou”. Para esse jovem (e, talvez, para meus eventuais leitores) não há nenhum compromisso entre os poderes depositados nas mãos de um agente do Estado (sua competência funcional) e a competência específica (sua efetiva capacidade operacional) para o exercício das funções que lhe são cometidas, supondo-se esta última sempre existente, pela mera aprovação do funcionário no concurso público. Como se vê, meu interlocutor parece acreditar piamente nas virtudes absolutas dos processos de avaliação. Para ele, também, a desatenção de um funcionário do INSS que lança nos registros a morte de um homem que não morreu, é um simples erro, que não merece ser punido. É preciso reciclar o funcionário, afastando-o do serviço para algum curso tedioso cujo resultado sabemos todos qual é.
Apressou-se a ressalvar que a culpa, no domínio do direito penal, é diferente, em virtude da importância do bem tutelado, e, assim,  fiquei sabendo que o arranhão resultante de um atropelamento vulnera a integridade física, bem mais precioso do que o prejudicado por um erro fiscal que leve uma empresa à falência e centenas de empregados ao desemprego, com as repercussões presumíveis para suas famílias. Ou seja: se não se tratar da vida ou integridade da pessoa, a imperícia, a negligência e a imprudência, são perfeitamente aceitáveis, no cidadão particular e no agente do Estado, porque “errar é humano”.
Minha geração aprendeu que “errar é humano” significa: tome o máximo de cuidado para não errar, embora, ainda assim, o erro seja possível. Minha geração aprendeu que errar não é normal; normal é agir corretamente, sendo o erro uma imperfeição a ser evitada a todo custo. Minha geração aprendeu que somos responsáveis, sim, pelos efeitos de nossos erros, mesmo que a ação não tenha sido intencional. Minha geração aprendeu que aqueles que se comportam como se o erro não lhes pertencesse mereciam, e ainda merecem, um qualificativo: irresponsáveis. O que meu jovem interlocutor me ensinou é que a geração dele é ensinada a ser irresponsável, o que, indiretamente, me anuncia que seus formadores já devem ser irresponsáveis eles próprios.
Como terá isso começado? Há 70 anos, quando psicólogos americanos começaram a difundir a ideia de que crianças não podem ser contrariadas para não ficarem traumatizadas? Terá sido pelo entendimento simplificado e ingênuo de um Estado de bem-estar em que ele, Estado, que nada produz, tudo provê? Será que começou ou agravou-se, no caso do Brasil, na crítica à ditadura militar, quando o acatamento à lei e a ordem passaram a ser insidiosamente associadas à conivência com um regime ilegítimo? Decorrerá essa atitude mental apenas da exacerbação, a que me referi no início, da ideia de que temos direitos, mas não obrigações?  Será uma “vingança” das pretensas “vítimas” de um pretenso “sistema”, cuja impotência se converte em um descompromisso total com os efeitos das próprias ações? Estará essa atitude baseada na crença otimista e desarrazoada em uma natureza humana que “quer” o bem, quando o que parece efetivamente mobilizar as pessoas é a “lei do mínimo esforço” e a busca do prazer pessoal? Pode ser, talvez, tudo isso e mais alguma coisa?
Não tenho a resposta. Tenho, apenas, a epifania que meu jovem interlocutor me provocou: vivo na era dos irresponsáveis. A miríade de equívocos e malfeitos que pululam no dia-a-dia não decorre apenas ou principalmente de falhas estruturais de difícil correção. Os erros não são evitados porque as pessoas não imaginam que seja de sua responsabilidade evitá-los, ou seja, são irresponsáveis. E isso, que às vezes ocorria nos tempos de minha juventude, mas era considerado aberrante, agora é doutrina.

Confesso que essa constatação me incomoda muito, e aprendi que “os incomodados é que se mudam”. O problema é: para onde?