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domingo, 23 de junho de 2013

A rotação diferencial da Galáxia, o Buda e os movimentos de rua no Brasil

Há pouco mais de 50 anos, descobri, muito jovem ainda, que havia um fenômeno chamado rotação diferencial da Galáxia. O empenho que tive em entender o de que se tratava teve um efeito colateral que nunca pude determinar se foi, para mim, fonte de consolo ou de desencanto: percebi que se a Terra inteira fosse aniquilada o efeito desse cataclismo na rotação diferencial da Galáxia seria nulo.  O efeito colateral em minha mente foi avassalador: convenci-me de que o fenômeno humano é irrelevante em escala cósmica.
Um ou dois anos depois, li, avidamente como lia tudo que me caía nas mãos, o Sermão de Benares – o primeiro sermão do Buda – em cuja parte introdutória ele diz (cito de memória): “o amor compassivo do Tathagatha distribui-se uniformemente por todos os seres do Universo, por isso eles o chamam Pai”.  Mesmo hoje, não tenho palavras precisas para descrever o que senti – e ainda sinto – diante dessa afirmativa, mas tive e tenho a certeza de que ela foi uma revelação: minha meta na vida seria (como é) poder algum dia fazer essa mesma declaração a meu próprio respeito.
Então, operou-se curiosa bipartição em mim. Por um lado, os fenômenos planetários e, especialmente, humanos, deixavam de ter relevância em minha mente. Por outro lado, o cultivo de um amor compassivo por todos os seres tornava-se o imperativo moral mais forte a conduzir meu julgamento do mérito das ações e a Nêmesis permanente a vergastar meus afastamentos desse ideal que fizera meu.
À medida que a convivência com pessoas de todos os tipos foi-se acrescentando às minhas experiências juvenis, o amor compassivo tornou-se nitidamente superior, como motor da existência, à irrelevância da humanidade.  O ideal búdico sempre se me afigurou mandatório para mim, mas, quanto às ações dos outros, aplicava-se a eles, de minha parte, um certo ceticismo blasé, vista a desimportância, afinal, do fenômeno humano. Contraditório, talvez, mas quem repudia a contradição é a lógica, não a realidade.
Um terceiro elemento da minha precoce formação foi, tanto quanto me parece, inato: uma grande facilidade de perceber imediatamente os múltiplos aspectos da cada situação; uma percepção “a sentimento” de algo que só iria estudar intelectualmente muito tempo depois: os interesses ocultos por trás dos valores declarados.
O (triste) resultado disso foi que o agudo sentimento da experiência do Outro misturava-se com profundo desencanto, face à hipocrisia humana, em relação a quaisquer movimentos “salvadores da humanidade”, religiosos ou profanos. Esse desencanto não se transformou em desespero – estou falando da minha adolescência! – porque, afinal, como havia “descoberto”, o fenômeno humano nada significava em escala cósmica.
Tornei-me capaz de apaixonar-me por pessoas, mas nunca por movimentos, seja porque não encontrasse nenhum em que os valores proclamados não escondessem interesses inconfessáveis de indivíduos, seja porque jamais tolerei disciplina de consciência. Posso, certamente, adaptar, em certa medida, minha conduta à conduta de outras pessoas com quem deva trabalhar para a realização de um propósito comum, mas não conseguia – e ainda não consigo – alienar meu julgamento a uma autoridade maior: jamais consegui ser liderado em termos de limites à minha curiosidade e do julgamento de valor que faço acerca do que imagino conhecer. Sempre fui – e continuo sendo – o que nos Estados Unidos se chama um maverick, termo pejorativo, colhido do nome dos cavalos que não andam em bando, para designar o solitário que não submete sua opinião à orientação de partidos, igrejas ou corporações.
Não me vanglorio disso. Ao contrário, a solidão é pesada, muito pesada. Participo do que acho que deva participar (muito pouca coisa, na verdade) sem paixão e com intenso senso crítico, de modo que me retiro tão logo o rumo das coisas ou das pessoas se afasta do que entendo ser conveniente.
A experiência da vida, a reflexão e o cultivo acadêmico me levaram a praticar um outro exercício – este fascinante! Em vez de repudiar in limine o pensamento de quem quer que manifeste ideias – não importa se elas me despertam concordância ou discordância – sinto-me intelectualmente obrigado a raciocinar dentro do paradigma ideológico ou teórico utilizado pelo meu interlocutor, para verificar a exatidão de seu pensamento no contexto de seu próprio referencial e não em outro qualquer que eu porventura considerasse preferível. É claro que tenho minhas convicções provisórias, mas não acho útil confrontar as convicções de outrem com as minhas, para fins de avaliação de seu pensamento. O que considero valer a pena é entendê-las como ele as entende (ou deveria entendê-las em seus próprios termos) e, depois disso, sim, comparar o mérito delas com o mérito de meu pensamento anterior ao conhecimento assim adquirido. Anos depois de ter tornado habitual essa prática, descobri que o filósofo Espinosa procurava fazer a mesma coisa, e senti-me em boa companhia.
A expressão “convicções provisórias” decorre da certeza de que não conheço a verdade (e, para esse efeito, nenhuma outra pessoa a conhece), se é que “verdade” é “alguma coisa” que se conheça. Não desejo tornar este texto filosófico, no sentido especializado, mas quero afirmar que vejo, de preferência, a “verdade” como hipóstase dos critérios que legitimam a aplicação do predicado ”é verdadeiro”. Esses critérios – verifica-se – alteram-se ao longo da história, de modo que as convicções, que representam a intuição dessa verdade cambiante, mudam no tempo e com a quantidade e o tipo de informações de que dispõe o grupo social em que o indivíduo se reconhece inserido.
Tudo isso é dito para explicar o que sinto diante do que acontece neste mês de junho no Brasil.
O que me empolga no que estou vendo é exatamente o que muitos deploram: a dificuldade (que espero seja, de fato, impossibilidade) de uma força organizada controlar o movimento das ruas. É evidente que tendências políticas estruturadas, de todos os matizes, tentam e tentarão tirar vantagem dessa súbita energia popular.
Depois dos primeiros dias, vejo, no meio que possibilitou esse movimento aparentemente caótico – a Internet –, o contra ataque dos tradicionais controladores da massa, seja para desqualificar a espontaneidade, seja para inculcar aos manifestantes seus próprios objetivos.  Isso é natural e deveria ser esperado. Entretanto – e tomara que não me engane – creio que esse movimento não é da massa, é do povo. Há sutil diferença entre esses termos, embora possa ser aplicado ao mesmo conjunto de pessoas. A massa é manipulada e repercute ideias de uma liderança restrita, frequentemente de natureza autoritária; o povo é capaz de despertar ideias e sentimentos espontâneos, que podem ser desagradáveis a algumas lideranças e, talvez, a todas.
Alguns alertam para o perigo de que o movimento apartidário seja antipartidário,  alegadamente por medo de que dele se aproveitem candidatos a autócratas, mas, talvez, apenas porque isso tira de seu próprio partido o protagonismo. Alguns criticam a falta de reivindicações específicas do movimento ou, por outro lado, a pluralidade de reivindicações que tornariam esse mesmo movimento politicamente estéril.
Quero dizer que é exatamente isso que me atrai a atenção. Esse movimento não é um movimento de esquerda no sentido clássico, mas também não é um movimento de direita. Percebo isso menos pela retórica dos manifestantes e mais pela insatisfação dos ideólogos das duas extremidades com uma prática que eles não controlam. Se fosse um movimento de esquerda ou de direita, eu voltaria a cogitar da rotação diferencial da Galáxia e a aproveitar mais um exercício da estupidez humana pra por à prova meus frágeis progressos no sentido de expandir meu amor compassivo. Mas não é. Acredito estar vendo um fenômeno novo que não se descreve nem se compreende pelos manuais ideológicos do tempo da Guerra Fria. Acredito que não é apenas pela revolução informacional que um movimento desses se tornou possível, mas pelo surgimento de outra mentalidade, gerada por processos neuronais que a tecnologia contemporânea ajuda a desenvolver. Por outro lado, tal qual tem acontecido ao longo da história, o Brasil ainda não faz a sua; repercute uma onda internacional. Então, do mesmo modo que o quadro internacional desafia a geopolítica que conheci ao longo da vida, creio que o que aqui acontece desafia as técnicas de análise que foram úteis no passado.
Não sei o que vai acontecer. Não acredito na analogia simplista que supõe que se esteja fazendo desordem para atrair uma ditadura. Creio, sim, que estamos diante de um quadro revolucionário, mas não em termos da velha revolução socialista que a esquerda do começo do século XX imaginava. Creio que, assim como a revolução burguesa do século XVIII (revolução americana e revolução francesa) substituiu a soberania unipessoal do rei pela soberania impessoal do povo, estamos vivendo uma nova transformação no conceito de soberania que afetará não apenas as relações internacionais, mas, também, as relações interpessoais e as formas de dominação (que, desculpem, sempre existiram e sempre existirão).

Não sei se verei o final desse processo, ou, pelo menos, sua estabilização em um patamar intermediário. Afinal, sou velho. A rotação diferencial da Galáxia e uma análise realista do tempo que me resta talvez me aconselhem a não me empolgar tanto com esses assuntos e cuidar mais da tentativa, ainda não tão bem sucedida assim, de expandir meu amor compassivo.