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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Passa, passa, gavião, todo mundo é bom

Quando era criança, meninos e meninas brincavam de roda ao som de cantigas românticas ou bizarras.  Mesmo bem garoto, lá pelos meus cinco anos de idade,  já achava que esta letra, especialmente, era um completo absurdo: passa, passa, gavião, todo mundo é bom. Cantava-se andando em roda, de mãos dadas. Em seguida,  os participantes soltavam-se as mãos e, mantendo a roda, roçavam os punhos fechados um no outro, enquanto cantavam: as lavadeiras fazem assim, assim, assim. 
O que poderia ter um gavião que passa a ver com a qualidade das pessoas e, menos ainda, com o ato de esfregar roupa das lavadeiras?  Só muito depois vim a saber que se tratava de uma desvairada tradução, por similaridade fonética, de uma canção francesa, que diz: Sous le pont d’Avignon, tout le monde y passe. A letra diz que as pessoas passam pela ponte de Avinhão e veem, junto ao rio, as lavadeiras exercendo seu ofício (por isso a gesticulação, acompanhada do “assim”, “assim”).
O que tem isso a ver com o momento que estamos vivendo?  Tudo!
Vejo nos jornais a foto de D. Erenice Guerra desembarcando do governo às pressas, para que a campanha presidencial de D. Dilma Rousseff não seja (mais) salpicada por um novo escândalo, dos muitos deste governo, desta vez protagonizado pela família de D. Erenice.
Em vez da cívica indignação que deveria assaltar meus brios de cidadão ante a rasteira rapacidade dos que se cevam no Estado por conta do poder de um parente no governo, lembrei-me, com cínico desencanto, da cantiga de roda: passa, passa, gavião.  No final das contas, o resultado vai ser que todo mundo é bom.  É justamente o absurdo da canção infantil o que a torna adequada para associar-se ao Brasil do presente.
A semelhança dos absurdos começa pela tradução ignorante, não da letra, mas dos mecanismos da vida democrática e republicana, importada de outros povos sem a base histórica que nos vacine ou alerte contra certas mazelas que podem vicejar no governo do povo, pelo povo e para o povo.  É isso que nos faz confundir líder populista com líder democrático e exercício do governo com aparelhamento do Estado – tal qual as que crianças adaptavam sous le pont d’Avignon, tout le monde y passe como passa, passa, gavião, todo mundo é bom, como se isso fosse algo que se aproveitasse.
Nossa vida política segue, evidentemente, a versão brasileira da música.  Exatamente porque não temos em nosso DNA histórico o horror aos golpes contra o interesse público e temos com o governo uma relação espúria de paternalismo do poder contra a correspondente concepção adolescente de que exercer a liberdade implica enganar o pai governo, ou, pelo menos, as partes dele que representam controle, nossa leniência com os malfeitos da vida pública caracteriza-se não apenas pela sua intensidade elevada, mas, também, por uma estranha seletividade.
Explico melhor: a violação da lei pelos agentes políticos ou com sua bênção não os desqualifica sumariamente a nossos olhos.  Permitimo-nos condenar certos crimes em determinadas condições e desculpar os mesmos crimes quando outros os praticam, ou o fazem em diferentes circunstâncias.  A violação em si não nos escandaliza; seu propósito é que nos pode escandalizar ou não.  
Os próprios crimes que nos escandalizam são tolerados e esquecidos quando uma contrafação de processo, viciado pelo corporativismo, exime os culpados de punição, mesmo quando a inocência dos perpetradores não seja acreditada por quem os julga.  Absolve-se pelo poder de absolver e na expectativa de uma troca de favores similares na hipótese de que uma pesquisa mais funda da corrupção endêmica transforme os juízes de hoje nos réus de amanhã. Hodie mihi, cras tibi – hoje é comigo, amanhã será contigo – é o dito latino que parece sintetizar a defesa genérica dos envolvidos.  
Os atos de improbidade em benefício financeiro próprio (“roubar”, na linguagem coloquial) parecem-nos, equivocadamente, mais graves do que os atos de improbidade que se destinam a fortalecer um projeto político-partidário, seja robustecendo os cofres do partido para financiar suas campanhas, seja enfraquecendo as instituições, ao corromper agentes políticos ávidos de propina financeira ou outras facilidades, ofertadas pelo poder da caneta que nomeia e demite ou pela burra do dinheiro que lhes paga benesses por debaixo dos panos (ou, sem que o saibam, diante das câmeras ocultas).
O escândalo do mensalão só incomodou a fundo meia dúzia de ranzinzas – eu entre eles – que se preocupam com a natureza das relações entre governo e Estado, entre governo e sociedade e entre Estado e sociedade.  Para o povo em geral, trata-se de delito menor, porque a vultosa soma movimentada não foi para o bolso do presidente Lula nem do ex-ministro José Dirceu. Pela alegada ação de um e ostensiva omissão do outro, praticou-se, contra as instituições, um crime que a poucos comove, porque os alegados mentores da ação, afinal, não “roubaram”, apenas “facilitaram a governabilidade” e “robusteceram seu projeto politico”.  No dizer o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos foi “só” um caixa dois.  Isto seria tão rotineiro que chegaram a dizer, no Congresso, que todo mundo faz.  Para que o vexame nacional não fosse irremediável, foi preciso que o senador Saturnino Braga saltasse lá do fundo da sala exclamando: todo mundo uma pinoia! EU não faço.  Após um instante de constrangimento, esqueceu-se convenientemente o excêntrico, que aparentava ser espécime único entre seus pares – um animal em extinção.
O que incomoda, agora, no caso dos familiares de D. Erenice é que há indícios de proveito pessoal auferido por conta do acesso privilegiado a servidores do Estado e a decisões de governo, o chamado tráfico de influência. Perguntada sobre o assunto por uma jornalista, no debate de candidatos presidenciais da Folha de São Paulo, D. Dilma Rousseff deu uma resposta que talvez lhe tenha parecido acachapante: se o filho de um funcionário da empresa em que você trabalha (ela teve a delicadeza de não dizer seu filho) praticar atos errados, a culpa é do presidente da empresa?
A réplica era proibida aos jornalistas. Se não fosse, possivelmente D. Dilma ouviria algo mais ou menos assim: a senhora não construiu a situação análoga adequadamente. A analogia ocorreria se o filho do meu colega tivesse praticado atos lesivos à empresa em decorrência do acesso privilegiado de que desfrutasse por conta de uma especial intimidade que o  presidente da empresa lhe concedesse, qualquer que fosse o motivo.  A palavra chave, é “acesso privilegiado”, o que é, no caso, redundante: o simples fato de haver acesso já é, nos ambientes em que os alegados fatos ocorreram, um privilégio.  Se um indivíduo tem acesso ao mais alto escalão, os titulares de escalão intermediário, seja por um julgamento ingênuo acerca do merecimento de confiança, seja por simples aulicismo, para agradar aos poderosos do dia, abrem-lhe franquia igual em suas esferas de atuação.  É claro que isto não os exime de cumplicidade no malfeito, por ação ou omissão, mas a responsabilidade de quem garantiu o acesso maior não pode ser escamoteada, como acontece na simplificação que a senhora formulou.
Esta seria uma réplica educada e certamente a jornalista pensou algo parecido, que lhe morreu na garganta, sufocado pelas regras do debate.  Mas a réplica que não foi dada, estava, com certeza, nas mentes das pessoas – de D. Dilma, dos mentores de sua campanha e até do presidente Lula, cuja insuficiência em educação formal é, para este efeito, largamente compensada por aguda argúcia política.  Os parentes de D. Erenice só tiveram acesso aos postos e contatos que utilizaram porque ela estava no poder, e ela só esteve no poder pela amizade, ou confiança, ou ambas, a ela dedicadas por D. Dilma Rousseff.  É evidente que D. Dilma não é responsável pelos atos do filho ou de outros parentes da amiga e  ex-colaboradora, mas também é verdade que o acesso e a credibilidade dessas pessoas ante funcionários do governo é decorrência direta e inseparável da amizade e confiança que D. Dilma deposita ou depositou em D. Erenice.
A circunstância de uma possível participação oculta da própria D. Erenice em uma empresa da qual não é sócia ostensiva, mas em que teria interesse por meio de interposta pessoa – um laranja, na linguagem vulgar – não a favorece.  O uso de laranjas, ainda que fosse para ocultar, por modéstia, uma benemerência, desperta naturalmente suspeitas.  Afinal, quem não tem o que esconder, mostra a cara.
Então o governo foi rápido e D. Erenice foi exonerada “a pedido”, ou seja, honrosamente.  Talvez, assim, não se fale mais nisso, já que os envolvidos estarão, agora, fora do poder.  Os gaviões, quem sabe, travestir-se-ão como inocentes pombas, e passarão, passarão.  Feitas as contas, todo mundo é bom. 
Só fica faltando explicar as lavadeiras, fazendo “assim”, “assim”.  Com tanta sujeira para lavar, elas não param tão cedo.