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sábado, 11 de setembro de 2010

Dona Dilma, o poste o o cardeal Roncalli

Na Bahia, dizem que o falecido senador Antônio Carlos Magalhães vangloriava-se de ter tão completo domínio sobre o eleitorado que seria capaz de eleger um poste.  O "poste", na verdade, era a metáfora para indicar um político desconhecido e desprovido de qualquer brilho.
Não sei se o senador algum dia exercitou a propalada capacidade. Os adversários de seus apaniguados eleitos dizem que sim. Os próprios dizem que não, que seus méritos, se não tiverem sido determinantes para a eleição, foram a ela indispensáveis.
Estas considerações vêm a propósito do fenômeno eleitoral de D. Dilma Rousseff. Seria ela um "poste" a ser eleito pela vontade do presidente Lula?
Observadores apressados talvez digam que sim, e até esperem que, mesmo não sendo um "poste", a possível eleita venha a ser fantoche de seu inventor.  Até a excelente jornalista Dora Kramer, em um de seus sempre lúcidos comentários, afirma que a criatura não se poderia voltar contra seu criador, sob pena de ser politicamente destruída.
Peço licença para discordar das duas teses. D. Dilma não e um poste e nem será um fantoche.
Aliás, os pretendidos "postes" não costumam ser fantoches. Na Bahia, em 1982, o senhor Clériston Andrade, candidato a governador patrocinado por Antônio Carlos Magalhães, morreu em trágico acidente, às vésperas da eleição. Sem que por isto se neguem ou afirmem as possíveis qualidades do senador João Durval Carneiro, escolhido para substitui-lo como candidato, há indícios de que foi a capacidade eleitoral de ACM que o catapultou ao governo sem ter tempo de fazer campanha.
Pois bem, como governador, João Durval foi tudo, menos fantoche de ACM, o que ocasionou a ruptura entre ambos.
Não imagino D. Dilma elegendo-se e rompendo com o presidente Lula.  Ao contrário. Imagino D. Dilma assoberbada pelas forças conflitantes que pensam poder dominá-la: Lula de um lado e o PT do outro.
O PT não manda em Lula; é Lula que manda no PT.  Mas Dilma... O PT está ansioso para ter um quadro seu na presidência, um quadro que possa -- pensam eles -- ser submetido à disciplina partidária.
Lula não.  Lula está para o PT, mal comparando, como o padre Vieira para a Companhia de Jesus, no dizer do padre Manuel Bernardes: "mais honra faz ele à Companhia que a Companhia a ele".
Então Lula manda no PT e, por enquanto, em D. Dilma também.
Acredito -- apenas acredito -- que D. Dilma tentará apaziguar o PT e não decepcionar Lula.  Isso perturbará, talvez, os dois primeiros anos de seu governo.  Mas dizem que D. Dilma tem pavio curto.  Vai chegar um momento em que ela vai perceber que não pode deixar de governar para atender a exigências ideológicas ou fisiológicas do partido. Um pouco depois, talvez, a notória diferença de capacidade administrativa (não estou falando de capacidade político-eleitoral) entre D. Dilma e seu patrono, a favor dela, vai fazer com que ela o decepcione, por mais que tente não fazê-lo.  Então, as exigências das conjunturas nacional e internacional, especialmente esta, falarão mais alto, e D. Dilma governará por si. 
D. Dilma parece ser uma peça bem colocada na hierarquia.  Peças bem colocadas na hierarquia são pessoas que sabem quem manda nelas e sabem em quem elas mandam, e não têm nenhuma dificuldade em lidar com isso; sabem obedecer e são exigentes no mandar. Essas pessoas, quando chegam ao poder supremo, são surpreendentes. Ninguém imagina que elas tenham opinião própria, mas têm.  Apenas, a reservam para o momento adequado, lógica, ética e politicamente.
O século 20 conheceu uma figura assim, luminosa, por sinal. Refiro-me a D. Angelo Giuseppe Cardeal Roncalli.
Exímio diplomata, sempre foi um cumpridor de ordens, fiel e competente.  Quando o papa Pio 12 morreu, os cardeais, divididos entre conservadores e liberais, não se sentiam aptos a impor a vitória de um partido sobre o  outro. (Que heresia! Afinal o conclave é só um veículo do Espírito Santo!) Então, elegeram um "papa de transição": um homem velho (que, previsivelmente, duraria pouco), inteligente, competente em suas funções, mas pouco mais que um burocrata, só para manter o dia a dia da Igreja até que a correlação de forças se definisse melhor.  Esse homem foi o Cardeal Roncalli, que reinou gloriosamente como papa João 23 e provocou um verdadeiro terremoto ao convocar o Concílio Vaticano 2°, destinado ao aggiornamento da Igreja Católica Apostólica Romana.
O Cardeal Roncalli também não era um "poste".  Era um homem notável que sabia bem o que pensava, mas tinha disciplina e prezava a hierarquia.  Enquanto teve superiores, foi fiel a a eles.  Quando foi alçado ao poder máximo, foi fiel a seu descortino e a sua consciência.
Creio que D. Dilma surpreenderá Lula tal e qual ele surpreendeu seus eleitores com a  continuidade da política econômica do governo de Fernando Henrique Cardoso.  Em ambos os casos, talvez os surpresos não fiquem felizes.  Espero em Deus que o Brasil fique.