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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Não quero ser um filho da Dilma

Antes de mais nada, meu profundo respeito a D. Dilma Rousseff, de quem dizem maravilhas como administradora.
Houve, neste país, um mensalão, que alguns pensam que não existiu, mas cujo esgoto corre nas valas processuais do Supremo Tribunal Federal, pelas artes do Ministério Público e as bênçãos cívico-jurídicas do ministro Joaquim Barbosa. Os fatos que deram origem ao neologismo – embora, infelizmente, a prática não fosse tão nova assim – defenestraram do governo o todo-poderoso ministro José Dirceu, então chefe da Casa Civil.
Alguns “espíritos amargos e estreitamente positivos” (para usar a ironia ferina de Eça de Queiroz, em A Correspondência de Fradique Mendes) perguntaram-se então: quem vai, agora, administrar o Brasil? O comentário maldoso apontava a pretensa incapacidade gerencial do presidente Lula, cujo talento para o palanque não deixaria margem, nesta versão, a que ele fosse o verdadeiro governante do dia a dia.
A maledicência de ontem tonou-se, afinal, a verdade de hoje, pela palavra insuspeita do próprio presidente, a nos afirmar, quase todos os dias (e por isso sofre multas da Justiça Eleitoral), que D. Dilma Rousseff foi, é e será a “mãe” de todas as coisas boas que se fizeram no País, durante sua estada na Casa Civil, sucedendo a José Dirceu.
Referida por Lula como a “mãe do PAC”, sigla para programa de aceleração do crescimento, cuja eventual lentidão foi, em tempos, motivo de irritação presidencial com o Tribunal de Contas da União, D. Dilma declarou, em recente entrevista, como candidata em campanha para a presidência, que governaria como a “mãe de todos os brasileiros”. Cito de memória; pode ser que houvesse uma palavra a mais ou a menos, mas o sentido era esse e a mágica palavra “mãe” certamente foi mencionada.
Quando comecei a tomar consciência da vida política (e isso foi desde a infância), descobri que meus pais eram “getulistas”. Na época, testemunhei inflamadas disputas entre “getulistas” e “lacerdistas”, coisa como debates entre vascaínos e flamenguistas, no Rio de Janeiro, ou torcedores do Bahia e do Vitória, em Salvador. Eu mesmo, confesso que senti uma certa alegria selvagem, oriunda da parte reptiliana de meu cérebro, ao saber, por quem se dizia testemunha ocular dos fatos, que o Sr. Carlos Lacerda, abrigado na Embaixada Americana, no centro do Rio de Janeiro, escondera-se na caixa d’água do prédio, apavorado com a possibilidade de ser vítima da indignação do povo que passava em frente carregando, literalmente nos braços, o ataúde de Getúlio recém-morto, levado do Palácio do Catete para o aeroporto, de onde seria trasladado para o Sul.
Meu espírito crítico, porém, despertado por volta dos 12 anos de idade, logo percebeu o absurdo dos maniqueísmos. Descobri que o mundo não se faz do contraste de branco e preto, mas de uma infinidade de tons de cinza que, conforme a iluminação e o ângulo por que são vistos, aparecem com a brancura ou a pretura que os ingênuos lhes atribuem. Foi por isso que perdi a oportunidade única de, na adolescência, acreditar em “causas” ou em partidos, de ter paixão política e tornar-me um rebelde pronto tanto para salvar o mundo quanto para desprezá-lo como se fosse um monte de abominações das quais se salvariam apenas os meus sonhos. Como Espinosa, em vez de ridicularizar ou lamentar as ações humanas, tornei-me obcecado por compreendê-las.
Mas voltemos à maternidade abrangente de D. Dilma.
Consta que Getúlio Vargas, que foi chamado “pai dos pobres”, é um dos modelos inspiradores do presidente Lula. Quando adquiri um mínimo de cultura política, entendi que Getúlio Vargas foi elemento importante no processo de modernização do Brasil. Na linguagem usual, “fez” coisas extraordinárias, que merecem admiração. Como todos os seres humanos, também teve defeitos e, pela posição eminente que assumiu, pode ser associado a acontecimentos lastimáveis, cuja repercussão a história reconstruída ex post fato coloca nas dimensões cabíveis.
A questão, porém, não é analisar o Sr. Getúlio Vargas como a personalidade fascinante que foi nem como o governante polêmico e prolífico que também foi. Trata-se da mitologia do “pai dos pobres” ou do Pai da Pátria, cuja existência e sobrevivência estão entre as causas de muitas mazelas da nossa trôpega caminhada BRIC*.
É assustador que o povo brasileiro tenha sido e ainda seja sujeito a acreditar em um messias político. É absurdo que as pessoas suponham que a vida do País (e sua própria vida) dependam da virtude miraculosa de alguém que seja “o cara”. É trágico que ainda se imagine que os governantes sejam nossos superiores benevolentes que nos “dão” alguma coisa ou “fazem por nós”, em vez de os considerarmos como os empregados – ilustrem que sejam – que contratamos para gerir nossos interesses coletivos.
Quero um presidente ou uma presidenta que seja honestamente antipático(a), mas competente. Não quero pai nem mãe no Palácio do Planalto, mas alguém escolhido pela maioria dos eleitores para gerir interesses de todos nós, de modo limpo e transparente, atribuindo-se sua verdadeira responsabilidade – boa ou má – sem exclamar diante de cada malfeito perpetrado em seu quintal (ou em um gabinete dos arredores): Ah, eu não sabia...
Minha mãe – que Deus a tenha – viveu até os 94 anos e teria completado o centenário em janeiro de 2010. Devo a seu senso de responsabilidade a base de minha formação como pessoa e a seu temperamento autoritário o desafio da relação afetiva e conflituosa que me empurrou para a busca do equilíbrio entre obediência e resistência – coisa que nem sempre foi agradável, mas pela qual sou, hoje, infinitamente grato. Não preciso de outra, e nem quero. Especialmente quando se trata de um estereótipo para uso populista, tendente a perpetuar uma servidão emotiva e acrítica que incapacita o desenvolvimento da cultura política de que todo povo precisa para ser realmente livre.
É por isso que não quero ser um filho da Dilma.

*Iniciais de Brasil, Índia, China e Rússia, os países emergentes que aspiram à condição de potências mundiais.