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domingo, 12 de setembro de 2010

Seis e meia dúzia

Isto é trocar seis por meia dúzia, diz o povo quando quer sublinhar que uma substituição imaginada nenhuma mudança substancial trará.
Um parente meu, quando tinha seus cinco anos de idade, estava aprendendo a usar o telefone.  Naquele tempo, o telefone era discado, e a avó ensinava à criança como se faziam ligações. O número que o menino ia discando continha o algarismo 6, que a avó enunciou como meia dúzia. O garoto discou o 6 e perguntou: "vó, o meia eu já disquei; onde é o dúzia?"
Esta história realmente acontecida parece indicar que há alguma diferença entre seis e meia dúzia, embora, no fundo, sejam a mesma coisa.
Com essa ressalva, animo-me a dizer que trocar um governo do sr. José Serra por um governo de D. Dilma Roussef é trocar seis por meia dúzia.  É claro que os dois seriam diferentes nas minúcias, mas o quadro geral será o mesmo.
Esta é uma daquelas afirmativas ousadas, especialmente em vésperas de eleição, que garante a quem a faça o justificado ódio dos dois lados.  Como assim?  O meu candidato (ou minha candidata) é a salvação do Brasil; a outra (ou o outro) é a ruina! O corolário desta crença facciosa será acusar o autor de senilidade, idiotice ou pura e simples ignorância crassa, quando não de malícia intencional.
Insultado o autor e recuperado o coração dos arroubos de indignação partidária, vamos aos argumentos.
Conforme tenho defendido em outras oportunidades, a capacidade de ação de um governante sensato é fortemente limitada e, mesmo, determinada, por acontecimentos que não estão sob seu controle.
Houve, no Brasil, em 1964, um golpe militar que só aconteceu por causa da  chamada guerra fria e do modo pelo qual ela se travava na América Latina. Vinte anos depois, a ditadura dele decorrente esgotou-se, porque a guerra fria chegara ao final, em razão de um impasse: faltou-lhe combustível econômico para continuar e, então, era aquecer-se e provocar o holocausto nuclear (e nenhum dos líderes mundiais que podia fazê-lo foi louco o suficiente para isso), ou extinguir-se, transformando-se em uma nova ordem mundial geradora de guerras de outra natureza.
Alguém argumentará que houve muitos acontecimentos, no Brasil, que propiciaram a restauração da democracia. Houve, sim, e a valoração deles em termos de apreciação e efetividade dependem da posição ideológica do narrador. Na verdade, enquanto os cães dos acontecimentos domésticos ladravam, a caravana da história, que não é mais nacional no mundo globalizado, passava.
Novamente, os críticos que me leram até aqui (muitos já terão abandonado a leitura do que considerarão um amontoado de sandices) vão dizer que a incorreção desta análise é demonstrada pela existência de outros países em que os acontecimentos não ocorreram do modo pelo qual tudo se passou no Brasil.  Sim, é verdade, mas esses países não são o Brasil.
E o que tem o Brasil de especial?
Nas vésperas da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, estava eu apresentando um seminário no Industrial College of the Armed Forces, órgão da National Defense University dos Estados Unidos, a convite do dr. Robert Schina, um historiador respeitado que coordenava o curso, quando um dos alunos me perguntou: "professor, em sua opinião o Brasil pode prosperar economicamente?"
Abreviando aqui a resposta que dei na ocasião, disse que sim, e justifiquei meu otimismo pelo efeito drástico que o êxito ou fracasso econômico do Brasil teria para os prospectos da economia... dos Estados Unidos, considerada a cascata de consequências que acarretaria.
Pouco mais tarde, viu-se o ataque especulativo contra os chamados Tigres Asiáticos e o desenvolvimento deles foi severamente afetado. Viu-se o ataque especulativo contra o rublo e a Rússia quase naufragou. (Quase?) Enfim, viu-se o ataque especulativo contra o real e, pela primeira vez na história , um presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, desenvolveu gestões junto aos órgãos financeiros internacionais no sentido de fortalecer a economia brasileira, ao mesmo tempo que o próprio Tesouro americano abria linhas de crédito para o Brasil.
Teria sido isto um indício de generosidade ou apego afetivo? Claro que não! Tal coisa não existe em política internacional. O que acontecia é que a economia brasileira tinha de dar certo, porque outros interesses assim exigiam.
O que quero mostrar é que o Brasil, já naquela época e muito mais agora, é peça fundamental no jogo mundial. Deixou de ser um peão que pode ser sacrificado em um gambito qualquer.
A política de desenvolvimento e projeção internacional do Brasil, iniciada com Getúlio Vargas, negociando a usina siderúrgica de Volta Redonda como contrapartida à cessão da base americana de Natal, na segunda guerra mundial, continuou com o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, com a política de Brasil grande dos militares, com a diplomacia presidencial de Fernando Henrique Cardoso e com a polêmica política externa de Lula. Trata-se de uma linha permanente, passando incólume por governos de diversa ideologia, de diversa base política e de diversa legitimidade. Hoje, tendo frutificado os remédios, às vezes amargos, de um relativo saneamento econômico (há, ainda, fragilidades por combater) o Brasil dá-se ao luxo -- duvidoso, é bom que se diga -- de meter-se na briga de cachorro grande que é o programa iraniano de energia nuclear. 
O que tem tudo isso a ver com Dilma e Serra?  Tem tudo a ver. É tudo isso que os torna uma versão eleitoral de seis e meia dúzia.
O que Serra diz que quer fazer é o que Dilma terá de fazer logo depois de afagar seu eleitorado e seu presidencial patrono, que talvez tenha na competência administrativa dela um adversário insuspeitado ante a inexpressividade política de sua origem.
Até as pedras da rua (que ainda têm pedras) sabem que se o Brasil não investir urgentemente em infraestrutura não poderá crescer no ritmo de que os brasileiros necessitam.  Mas isto nada quer dizer.  Ninguém lá fora está preocupado -- como nunca esteve -- com o que os brasileiros precisam ou deixam de precisar.  Mas se o Brasil não puder manter um crescimento sustentável a médio e longo prazo, o mundo sofrerá as consequências.  Então o Brasil tem de crescer e, seja qual for o presidente ou a presidenta, é melhor que ele ou ela faça seu dever de casa. 
O dever é o mesmo e as respostas são iguais, tanto Serra quanto Dilma sabem disso. Portanto, feitas as contas, o resultado é seis... ou meia dúzia, tanto faz.