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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Jürgen Habermas e as lições de Plínio, o Velho

Jürgen Habermas é, como se sabe, um dos mais importantes filósofos vivos.  Uma de suas mais expressivas contribuições para a reflexão atual é a teoria da ação comunicativa. A ação comunicativa de Habermas é baseada no pressuposto de veracidade.  Nela, os participantes trocam argumentos acerca de pretensões validez em boa fé, convencidos da verdade de seus argumentos e com intenção de ser transparentes para seus interlocutores quanto a suas verdadeiras intenções.
Em contraposição, a ação estratégica – aquela que se destina a levar o interlocutor a agir conforme o interesse e a vontade do locutor que se lhe opõe – não admite o pressuposto de veracidade.  Embora isso não seja obrigatório, ela pode abrigar – e muitas vezes abriga – a dissimulação e o engodo.
Como se vê, ao contrário do que imaginam os que se iludem com os nomes das coisas, a teoria da ação comunicativa não é uma teoria da comunicação.  Muito frequentemente, a comunicação reduz-se a uma ação estratégica usada para persuadir o outro a agir como seja desejado, não só por meio de argumentos, mas, também ou principalmente, de falácias ou, até, da mentira pura e simples.
Quanto a Plínio, o Velho, não é, aqui, Gaius Plinius Secundus, autor romano da História Natural, que morreu em 79 da era comum, em decorrência da destruição de Pompeia e arredores por uma erupção do Vesúvio.  Trata-se de Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL à presidência da República.
Plínio é um candidato presidencial que não pinta os cabelos.  Parece ser o único que se orgulha da idade. Sua cabeleira totalmente branca coroa a face que, durante os debates dos candidatos a presidente, mantém um permanente meio sorriso, dando-lhe a expressão de menino maroto que sabe bem a travessura que está fazendo.  Ele próprio já reconheceu que conserva sempre o bom humor.
Isto não desqualifica o velho Plínio nem lança dúvida acerca de sua seriedade.  Ao contrário. Talvez até mesmo por ter consciência de suas escassas probabilidades eleitorais, ele está ali para fazer o que todos os outros deveriam estar fazendo: transmitir sua mensagem de modo claro e inequívoco.
Só esta atitude valeria por uma lição.  Mas ele vai além: fustiga seus colegas e expõe suas tergiversações, dizendo clara e reiteradamente: “Você não respondeu minha pergunta” ou “não foi isso que eu perguntei”. 
O pior é que as perguntas são simples e diretas, suscetíveis de resposta com um sim ou um não.  Por exemplo, no debate de candidatos promovido pela Folha de São Paulo, declarou-se favorável ao aluguel compulsório de casas desocupadas e, em seguida, perguntou a D. Dilma Rousseff: “Dilma, você é contra ou a favor?”
Lembrei-me da armadilha que, segundo o evangelista, teria sido posta perante Jesus: “Mestre, é lícito ou não é lícito pagar tributos a César?”
Tal qual na pergunta dos fariseus, se D. Dilma declarasse ser contra, contribuiria, quem sabe, para alienar o eleitorado mais à esquerda, que poderia acompanhá-la em nome do “voto útil”; se ela se declarasse a favor, assustaria a classe média.  Seja por falta de inspiração divina ou jogo de cintura, seja porque a armadilha fosse de mais difícil desarme, D. Dilma nada achou que se comparasse ao famoso: “daí, pois, a César o que é de César, mas dai a Deus o que é de Deus”. Não respondeu. Preferiu fazer o elogio dos programas habitacionais do governo Lula – o “nosso” governo, como ela diz.  E Plínio, o Velho, exibindo no rosto uma expressão de “ingênua” surpresa: “Dilma, você não respondeu minha pergunta.  Não foi isso que eu perguntei.” E toca a repetir, na réplica, com irritante  (para os outros) simplicidade, a mesma indagação, que ficaria sem ser respondida: “Você é contra ou a favor?  Sim ou não?”
Em troca, recebeu de D. Dilma uma pergunta acerca da opinião dele quanto a minúcias da contratação de plataformas de exploração submarina pela Petrobrás.  Plínio, o Velho, abriu um sorriso de orelha a orelha e disse: “Ora, Dilma, não sei! Estou aqui num debate de candidatos à presidente.  Vim debater propostas de políticas. Você me pergunta sobre detalhes administrativos referentes a plataformas da Petrobrás? Não sei!”  E riu como quem se divertisse à custa da gaffe da neófita, que foi como D. Dilma parece ter-se sentido na constrangida tréplica. Plínio, nem mesmo gastou o tempo restante para manter a câmera focada nele, como faziam os outros candidatos.
Plínio, o Velho, deu verdadeira aula de como se participa de um debate. Sabe administrar o tempo, sabe o nível de tratamento dos temas, recusa-se ao bate boca e a personalizar a discussão  (aliás, reafirma sempre: “foi isto que meu partido me mandou aqui para dizer”) e deixa clara sua posição.
Não discutirei essa posição.  Respeito as ideias verbalizadas por Plínio como respeito quaisquer ideias que sejam afirmadas por alguém como fruto de sua convicção.  São as ideias clássicas de uma esquerda do tempo da guerra fria.  Se concordo com elas é uma outra história.  Mas concordando ou não, é a atitude clara e franca de Plínio que me permite conhecê-las e, com base nesse conhecimento, dar-lhe ou negar-lhe meu voto.
Agindo como age, especialmente quando chama a atenção dos seus interlocutores para a necessidade de expor-se (o que parece causar-lhe intenso e consciente divertimento), Plínio oferece aos telespectadores uma lição prática da diferença entre ação comunicativa e ação estratégica em Habermas.
A ação comunicativa tem como modelo a discussão racional:  a troca de argumentos em favor de pretensões de validez que leva ao consenso verdadeiro.  Esta seria a expectativa para um debate político: os candidatos exibindo suas ideias em busca de convencerem uns aos outros e o povo da verdade da seguinte proposição: "meu programa de governo é o mais adequado ao País no momento histórico em que se encontra."  Mas não é isso que se vê.  O que se vê é o discurso orientado pelos marqueteiros a partir de pesquisas que indicam o que o eleitorado quer ouvir para ser movido a votar em um candidato.
Não é atoa que D. Dilma diz e repete o “nosso” governo, transmitindo a messiânica mensagem: “eu e o Pai-Lula somos um”.  É isso que sustenta sua pretensão eleitoral, não a competência que ela efetivamente tem.  Então para quê programa? Para quê definir-se a respeito do que pode tirar votos?
O debate político eleitoral é pura ação estratégica em um circo montado para que os candidatos ocultem ao máximo as ideias que possam merecer a desaprovação de algum eleitor – isto é, praticamente todas. A mensagem final é: vote em mim para ser feliz, tal qual um desodorante sugeria que quem o usasse ficaria com “cheiro de mulher bonita”.
É por isso que Plínio, o Velho, tem alguma razão quando diz: “Eles são todos iguais. Só eu sou diferente aqui.”  E é mesmo. Se não for pelas ideias, será pelo comportamento exemplar como participante de um debate.